Quem é que os Conjurados de 1640 atirariam hoje pela janela

Dezembro 10, 2012 | Opinião

Hoje é um lugar comum dizer-se que Portugal está a perder a sua soberania. Efectivamente manda mais a Troika que o governo português, ordena mais a chancelerina Merkel que o Presidente da República. Porque a Troika nos manda trabalhar mais por menos dinheiro, o governo acabou com feriados como o 1º de Dezembro.

Fartos de 60 anos de ocupação castelhana, os conjurados de 1640 restauraram a independência de Portugal, mas nem todos os portugueses estavam ao lado dos 40.  A conjura partiu de um grupo de aristocratas conluiados com os burocratas letrados,  mas a maior parte da nobreza receou afrontar os espanhóis. O clero também se dividiu, com curas, monges e até os jesuítas, que de início tinham apoiado as pretensões de Filipe II , mas talvez devido aos interesses económicos e sociais nas possessões ultramarinas portuguesas, acabaram a apoiar a revolta, enquanto a hierarquia preferiu  colaborar com o ocupante, como fez a Inquisição.  Aliás, a Santa Sé demorou anos a reconhecer a secessão. Também a burguesia se dividiu  já que muitos mercadores  tinham negócios com os espanhóis. O povo não participou na conjura, mas esta só resultou porque se transformou num “movimento nacional e popular”, como sustentou Armando Castro.   Foi o povo que preparou o caminho para a libertação  através de motins ou revoltas contra a injustiça fiscal, contra a fome provocada pelos brutais impostos decretados por Miguel de Vasconcelos, que foi escrivão da Fazenda e secretário de Estado da duquesa de Mântua, vice-Rainha de Portugal, a mando de Filipe IV de Espanha e III de Portugal.  Foi o que aconteceu em 1637 com o motim dos pescadores de Lisboa ou as “Alterações de Évora” contra os pesados impostos sobre o sal, a carne, o vinho e o aumento de 25% da “sisa do cabeção”, um imposto sobre o consumo.  No Algarve os camponeses  atacam Silves, Tavira e Faro e recebem o apoio de burgueses (artesãos e mercadores) em Aljezur e Lagoa. As revoltas alastraram à Beira Alta e ao Norte (Porto, Braga e Bragança). O medo de que tais revoltas pudessem colocar em causa a estabilidade da estrutura de classes é que deve ter levado  os conjurados a atirar o corpo do traidor Vasconcelos pela janela, já cravejado de balas, para que o povo  saciasse a sua sede de vingança.

Hoje, 372 anos depois daquele 1º de Dezembro,  já não há oposições violentas, a não ser nas abstenções do PS de Seguro. E, no entanto,  estamos todos fartos da ocupação da Troika e do colaboracionismo cobarde e traidor do PSD e do CDS; fartos da austeridade que já provou não dar resultado; fartos do confisco de pensões e de salários; fartos de ver 13 mil crianças a chegarem à escola com fome, todos os dias!!); fartos de ver 25 empresas por dia a ir à falência; fartos de um país sem trabalho para quase um milhão e meio de desempregados; fartos da humilhação de 700 mil  homens e mulheres que vagueiam pelas ruas a pedir emprego a comerciantes e empresários com a corda na garganta para obterem um carimbo que prove ao Centro de Emprego que ainda não emigraram, nem desistiram de procurar trabalho neste país adiado; fartos de um governo incompetente e arrogante que vende o país a retalho a governos ditatoriais ou corruptos; fartos de um governo que ainda não tinha visto aprovado o Orçamento de Estado para o próximo ano, já estava a anunciar mais 4 mil milhões de euros de cortes na Saúde, na Educação e na Segurança Social. Isto num país que, segundo o último relatório da OCDE, de Outubro deste ano, investe na Educação apenas metade da média dos países daquela organização internacional,  e onde apenas 52% dos jovens  entre os 25 e os 34 anos terminam o secundário, contra 82% da média da OCDE.

Apesar de tudo isto,  os portugueses não querem a defenestração do ministro das Finanças, apenas pedem a demissão do primeiro-ministro.

Carlos Vieira e Castro

© 2020 Jornal Via Rápida Press. Todos os Direitos Reservados.