Incêndios no Caramulo: um crime com vários culpados e um bode expiatório

Setembro 7, 2013 | Opinião

Dedicámos o Golpe de Vista de 2.05.2013 à criação da associação CEIS Caramulo (Centro de Estudos e Interpretação da Serra do Caramulo) a partir de um premiado projecto da Escola EB 2,3 do Caramulo, numa abordagem  da  Serra como Recurso Didáctico, envolvendo a sua História, Cultura e Património, recursos naturais, desenvolvimento local e sustentabilidade. A 13 de Julho deste ano, alguns elementos do núcleo de Viseu da Olho Vivo participaram numa caminhada na Serra do Caramulo, organizada pelo CEIS e pela Junta de Freguesia do Guardão, guiada pela geóloga Margarida Morgado, professora na Escola Secundária de Viriato.

Este contacto mais intimo com a Serra do Caramulo, com as suas curiosas formações rochosas esculpidas no granito, a sua flora e o seu  património cultural  (como os caleiros que dão o nome ao percurso, aquedutos que levavam a água do alto da serra para povoações como Jueus, provável refúgio antigo de judeus) provocam-nos uma indignação ainda maior  perante os incêndios sucessivos que destruíram  floresta e ceifaram a vida de jovens bombeiros, ferindo gravemente  muitos mais.

A captura de alguns incendiários tem levado a opinião pública a concentrar neles toda a responsabilidade por estes fogos.  Estes criminosos hediondos devem ser severamente castigados, mas não podemos deixar branquear os restantes responsáveis por esta guerra que todos os anos provoca prejuízos e angústias nas populações rurais, mortes e feridos nos bombeiros e a destruição do património florestal e paisagístico.

Joaquim Santos Silva, professor de Defesa da Floresta Contra Incêndios, na Escola Superior Agrária da Universidade de Coimbra, disse na Antena 1 que o primeiro culpado pela morte dos bombeiros que perderam a vida no Caramulo é a cultura maioritária do eucalipto que coloca o nosso país no 5º ligar do ranking mundial de área ardida, logo a seguir a 4 países africanos.   O distrito de Viseu é o primeiro em área ardida e o terceiro em número de fogos florestais.

Também a CNA (Confederação Nacional de Agricultura) acusa o governo pelo corte de milhões de euros na prevenção, que associado à  “falta de ordenamento florestal e ao êxodo das populações são as causas da extensão dos incêndios” . “A paranóia do fogo posto” serve unicamente para “esconder o essencial que são as políticas incendiárias promovidas ao longo dos anos”, como as manchas contínuas de eucalipto e pinheiro” e o abandono da agricultura familiar” .

Pois é, lembram-se de Mira Amaral, ministro de Cavaco Silva, ter chamado ao eucalipto “o nosso petróleo verde”? Ora aí está: o país de Norte a Sul coberto de petróleo, a arder sem parar. As empresas de pasta de papel enriquecem, mas o governo que corta nos nossos salários e reformas  já gastou este ano quase 100 milhões de euros com os incêndios florestais, perto de 80 milhões no combate e apenas 20 milhões na prevenção.

E que faz a senhora Cristas, ministra da Agricultura? Ao fim de um ano de promessas às empresas de celulose, lá conseguiu que o seu partido, o CDS, e o PSD aprovassem no Conselho de Ministros do passado 19 de Julho,  o Decreto-Lei nº 96/2013 que facilita ainda mais a plantação de eucaliptos. Uma ministra incendiária!

É pena que os submarinos de Paulo Portas não possam ajudar nos incêndios. Mas dizem que o preço de um submarino dava para comprar 10 aviões “Canadair”de combate a incêndios. Mais barato, a médio prazo, seria investir sobretudo na prevenção para poupar depois no combate. Mas isso acabaria com alguns negócios…Estará aí uma das causas?

 

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